domingo, 8 de novembro de 2009

Constatações em lista.

como um ás da stand-up tragedy, o destempero via embratel me deu vontade de reler "questão de método", do sartre. estava no segundo capítulo, lendo sobre as totalizações e as generalizações demandarem certas mediações, mesmo correndo o risco da redundância - quando aninha, preparando-se para uma prova importante, colocou uma música do rapa cujo refrão é "me abrace, me dê um beijo e faça um filho comigo, mas não me deixe sentado numa poltrona num dia de domingo". simples assim, questão de método.
* * *
tentando preparar um texto em headline, com cada filha em um lugar da cidade, a milhas de distância das ilhas seychelles e a dois passos do paraíso, me dei conta que uma idéia próxima de serenidade é um passeio numa praça de salvador, rodeada pela obra de caribé, uma criança faceira, pulando e brincando com uma bola enorme pink e um pai todo carinhoso com a camiseta linda de uma negra jejê do pierre verger, usando um all-star preto surrado. e uma certa idéia de felicidade seria um jantarzinho no chez bernardo, tomando um drink de melão enquanto você me ouviria contar sobre a metamorfose de os meus e os seus transformarem-se em "os nossos". simples assim: tudo junto e misturado.
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acho que o melhor disco que ouvi até hoje, de todos, é o Fatal da Gal Gosta, cujas músicas são composições de Jards Macalé e Wally Salomão, e a direção musical é de Lanny Gordin. Vapor barato é fabulosa e Como dois e dois me emociona até hoje. Mas confesso que ultimamente ando ouvindo: "olha você vive tão distante/muito além do que eu posso ter/e eu que sempre fui tão inconstante/te juro, meu amor, agora é prá valer". E lendo "pleasure is oft a visitant; but pain clings cruelly to us, like the gnawing sloth on a deer´s tender haunchers, late and loth it is scared away", de Keats. nada demais, apenas a versão metida a besta, de final do século XVIII, para o inconveniente bichinho verde, barrigudo, com unhas cumpridas, sujas e envenenadas.
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je voudrais vous dire ça plus clairement, j´ai peur que vous en soyez facher contre moi: there is a pleasure in the pathless woods/there is a rapture on the lonely shore/there is society, where none intrudes/by the deep sea, and music in its roar/I love not man the less, but nature more/from these our interviews, in which I steal/from all I my be, ou have been before/to mingle with the universe, and feel/what I can´t ne´er express, yet cannot all conceal". Acho que essa versão de Lord Byron (1788-1824), no Childe Harold´s Pilgrimage, foi o ponto de partida para "muita sinceridade é absolutamente fatal", de Oscar Wilde. Passível de restrição, evidentemente.

Song for Nico.

Nico

Born in 1938
A good year for the Reich.
She could not participate
She didn't have the right.
For she was fatherless in the Fatherland.
Now it's 1966
Andrew's up to all his tricks.
And when Brian Jones is near
Nico doesn't feel so queer;
She's in the shit, though she's innocent
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone,
There's just today - No more...
Now it's Andy Warhol's time
Mystic 60's on a dime.
Though she kinda likes Lou Reed
She doesn't really have the need.
Already in the shit, though she's innocent.
And now she doesn't know
What it is she wants
And where she wants to go
And will Delon be still a cunt.
Yes, she's in the shit, though she is innocent.
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone
There's just today
No more.
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone
There's just today
No more.
Da da da da da
Da da da da da
Da da da da da.
Da da da da da
Da da da da
Da da.

Da da da da da
Da da da da da
Da da da da da.
Da da da da da
Da da da da da
Da da
Por Marianne Faithfull,

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pássaros na sacola.

rosto roxo
dos que não gritam
nuca vincada
tatuagem onde se afogam
os livros didáticos

não saí aos meus
portanto confie em mim
alguma bondade germina
quando te adio
Por Sérgio Mello

sábado, 31 de outubro de 2009

Sim pro sol, sim prá lua.

Gosto muito do seu jeito
qualquer nota bossa nova,
bossa nova qualquer nota,
eu quero você na veia.
E a vida passa na TV
e o meu caso é com você!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De ti a mim: elegia.

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens.
Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé.
E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem Vestes.
As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-Te:
atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.
John Donne

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Com saudades e a culpa é sua.

Banksy
Fossem meus os tecidos bordados do céu
ornamentados com luz dourada e prateada
os azuis e negros e pálidos tecidos
da noite, da luz e da meia-luz
os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos
eu estendi meus sonhos sob teus pés
caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.
William Butler Yeats
Ps: pra quem me recitou de cor e salteado.

Toninho, o Tarantino do Morro dos Macacos.

Banksy.

"Tinha acabado de assistir Bastardos inglórios, o novo filme do Tarantino, estava anestesiado pela piada e pelos gorós que entornei depois da sessão. Fui dormir. Lá pelas duas horas da manhã, começou o tiroteio no Morro dos Macacos. Moro no Grajaú, quase na Visconde de Santa Isabel. Longe da linha de tiro (até agora), mas perto, muito perto do barulho.Quando morava em Copacabana, vizinho do Pavão-Pavãozinho, presenciei uma troca de tiros. Foi algo intenso também, porém durou uns 15 minutos. Em seguida, removeram os presuntos, limparam o sangue das calçadas e a vida prosseguiu alegre na maravilhosa cidade do Ruy Castro. Quinze minutinhos só. Naquele final de tarde, eu lembro, o sol caprichou ao se recolher nas pedras do Arpoador. A turminha do tai-chi estava lá, eles e os deslumbrados de sempre, que fazem parte do presépio que é aquela paisagem. Tem uns que batem palmas pro pôr do sol.Há quase um ano que mudei pra Zona Norte. Dessa vez, bem longe do presépio, o bangue-bangue varou a madrugada. Eu me revirei um pouco na cama – tive alguns flashes dos bifes à parmegiana que comia no Clube Rio Branco (idos dos 80 lá em Andradas-MG) – e, meio que engazopado, levei meu sono adiante, não dei muita bola porque achei que os bifes eram um capricho do meu cérebro desgovernado pelo sono, sei lá, uma associação ou um prolongamento da carnificina do filme do Tarantino, qualquer besteira alhures, ficção misturada com dèja-vu, essas coisas inglórias & bastardas que acontecem com nosotros no meio do sono, depois de uma sessão de cinema, de uma certa idade e de umas doses de uísques nas ideias. Vou dizer, dormia bem, apesar do barulho.Às seis horas da manhã, levantei pra dar a mijadinha de praxe que me garantiria o sono até mais tarde, e não consegui voltar pra cama: a troca de tiros continuava intensa. Lá e cá. Era pra valer. Esperei até as oito, e liguei pro meu amigo Ricardinho Lisias, em São Paulo. Ele ouviu a guerra do outro lado da linha, e me convidou para o lançamento do seu livro, dia 28 outubro. O tiroteio se prolongou até as dez horas da manhã. Só podia ser uma guerra. Quando desci, o zelador me disse: “Morreu mais de trinta”. Eu, diferentemente do secretário Beltrame, que logo em seguida diria que se tratava de um problema localizado, pensei comigo mesmo: “Ih, caramba: será que vai ter pôr do sol no Arpoador? O pessoal do tai-chi vai conseguir manter o esfíncter relaxado depois dessa?” Tremenda besteira da minha parte, convenhamos. Há muito que eu havia deixado a Zona Sul. Por que essa saudade de um Rio de Janeiro que não existe mais? O Ruy Castro e os lordes ingleses da comissão olímpica – pensei – devem ter uma explicação. Ou eles, ou minha psicanalista bronzeada pelo sol de Ipanema – a gata formada na PUC que ainda não tive oportunidade de conhecer. Um beijo, linda, um dia perdido dos 70s apareço no seu consultório pra ajustar meus parafusos.O Rio de Janeiro, segundo o Reinaldão Moraes, é uma paisagem na memória do paulista. Pro Toninho, zelador do meu prédio, não é bem assim. O barraco dele, lá no Morro dos Macacos, fica apenas a 15 minutos do 602, lugar onde repouso o esqueleto e meus dèja-vus.“O micro-ondas esquentou a noite inteira”, me garantiu.“O que sobra de um corpo que vai pro micro-ondas?” Fiz essa pergunta pro Toninho, e ele me devolveu isso aqui: “Os outros pedaços vão aparecer, aos poucos. Serviço expresso: vem em carrinho de supermercado, na quentinha. Pelo Sedex, misturado com a farinha que vai fazer a cabeça de muito maluco em Vila Isabel”.Quer dizer que não teve micro-ondas pra tanto malandro? Aí ele prudentemente mudou de assunto, disse que o tempo ameaçava abrir e me pediu um dinheiro para comprar cigarro. Se não tivesse caído aquele helicóptero, fico aqui pensando comigo mesmo, nós – que não sabemos da missa um terço – o que mais teríamos a acrescentar, além do nosso cagaço, à barbárie? O quê? Cineminha? Testemunharíamos as rajadas (o som dos morteiros é diferente) e eventualmente levaríamos uma bala perdida nos cornos, como se fôssemos personagens do documentário de um cineasta mauricinho?O que resta? Deixem-me pensar. Bem, “tuitar” com o Bonner, mandar e-mails indignados pro blogue do Datena? Isso? Ah, meu Deus. Que final de picada. Até o Datena – vejam só – faz sucesso na blogosfera. Até aonde vão nossas informações? Tim Lopes, que também era Toninho, não voltou pra contar o que não deveria ter visto. E o pior: para que, afinal de contas, servem essas informações? Para quem?Toninho, o zelador, deixou escapar que, nos morros, corre a mais absoluta normalidade. A imprensa dizia que eram três presuntos, ele me garantiu que eram mais de 30 (número confirmado no decorrer da semana). Enfim, tudo dentro dos conformes. Você pode ser o próximo cadáver assaltado pelo capitão Bizarro!E a polícia? Ah, polícia não ocupa morro, nem na bala nem na paz. Helicóptero só serve pra tirar onda de efeito especial. Segundo depreendi do sorriso cínico do Toninho, blindagem só serve para proteger político safado, para acalmar as madames da Zona Sul e para distrair os urubus da imprensa. A PM enxuga gelo, e os moradores só se fodem. O que ocorre é uma relação básica de cliente com fornecedor. Oferta e procura. Capitalismo. A novidade, ou o avanço tecnológico do caos, atende pelo nome de milícia. Pensando bem, não se trata de uma graaande novidade: os milicianos nada mais são do que os atravessadores de sempre. Agem da mesma forma que seus colegas do Ceasa. Nada demais. O que vale é suprir a necessidade dos clientes. Satisfazê-los. Os cadáveres continuam – há 250 anos, desde a revolução industrial – acumulando sob a mesma lógica: a única diferença que existe entre os meninos de Wall Street e a rapaziada do Morro dos Macacos, além de os primeiros serem bem mais truculentos e branquelos, é o endereço. Qual o espanto? O Estado vai querer acabar com o capitalismo na bala? A história ensina que isso não funciona. De resto, me garantiu Toninho, as cachorras do funk estão na área, a histeria passa, eles mudam de assunto. Da falecida Vila Isabel de Noel Rosa, os urubus e a indignação voltarão a bordejar sobre os laranjais da Cutrale. O MST é a bola da vez. Até o próximo helicóptero cair, merrmão. Tarataratatá. Bum!Era como se Toninho, o Tarantino dos Macacos, me dissesse: não desligaram o microondas. A morte continua. A Copa do Mundo e as Olimpíadas vêm aí. O Lula sacode a pança e se diverte. O Ruy Castro escreve mais um livro em tecnicolor e câmera lenta, e fatura em cima. A “galera” do tai-chi pode relaxar o esfíncter numa boa: o sol do Arpoador vai prolongar a mesma palhaçada todo final de tarde. Outubro de 2009, Rio de Janeiro – eu amo esta cidade". Por Marcelo Mirisola, Aqui.

domingo, 18 de outubro de 2009

Epígrafe de uma história.

Resposta ao tempo:
Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer
Por Aldir Blanc e Cristovão Bastos

Meio passional por dentro.

Falta-me o sol que deixei contigo ontem de manhã naquele aeroporto, quando embarquei naquele avião que me trouxe de volta. A risada e o sorriso de suas perguntas sobre 1798 junto com o suor dos corpos. O cheiro do café da manhã e do lençol que nos protegeu da nudeza de nossos sonhos mais lindos. O barulho da vizinhança e da cadência na Ladeira dos Contentes. O roçar dos corpos dormindo e os olhares durante as caronas. O cuidado e o aconchego dos braços abertos, que acolheu meu começo, meu meio e meu fim. Das muitas coisas que você me deu, a principal delas foi a liberdade orgíaca do descomedir-se. Uma liberdade que me fez mais forte, mais assenhoreada de meu corpo, de minha alma e de meu mundo. Um caminho deliciosamente sem volta, nós sabemos. Você é lindo.

sábado, 3 de outubro de 2009

Natalício.

Sim, meu aniversário foi ótimo. As meninas, como sempre, uns amores. Meu pai me deu um cartão lindo com direito a um providencial bônus-track de recheio. Mamãe elegantemente constirpada, limitou-se a um parabéns, patrícia, tudo de bom pra você. Obrigada, mesmo. À noite, ganhei Girassóis da Rússia de um amigo querido. Depois fomos buscar uma amiga para jantarmos no Pirajá. Adoro o risoto di mare deles. Jantar legal. Podia ter sido melhor se essa amiga não entrasse numas de discutir sociologicamente a relevância ou não do Caio Prado, de quem sou fã incondicional, especialmente nesses tempos bicudos de Antigo Regime nos Tristes Trópicos. Durante o dia todo recebi mensagens realmente queridas, entre elas, claro, uma especial. Já bem tarde encontrei outros dois amigos na praça, Vivi e Daniel, adorados. Recebi o exemplar da Revista Artigo 5o., com a publicação da minha resenha Beijo do Asfalto, sobre o livro de Gabriela Leite. Adorei o cuidado da edição, e o próximo texto sairá do forno em breve. Depois de bater muito papo bom e conhecer um amigo de Vivi e Albérico, Dirceu, fomos até uma boatchezinha inóspita: papo bom e cenas divertidas. Bom, pra completar o esquema "por que economizar comemorações" dos meus 38 anos, embarco para Salvador na segunda-feira, 05/10, para mais uma temporada de trabalho e encontros, hospedada na casa dele: delícia das delícias.