segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Régua, compasso e vida.

Saindo de casa para o lugar mais lindo, aconchegante e cheio de histórias:
Salvador

domingo, 15 de novembro de 2009

Valeu maninho.

Lá vem o pato/Pata aqui, pata acolá/La vem o pato/Para ver o que é que há./O pato pateta/Pintou o caneco/Surrou a galinha/Bateu no marreco/Pulou do poleiro/No pé do cavalo/Levou um coice/Criou um galo/Comeu um pedaço/De jenipapo/Ficou engasgado/Com dor no papo/Caiu no poço/Quebrou a tigela/Tantas fez o moço/Que foi pra panela.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

1989.

Nesse ano eu tinha acabado de entrar na universidade pública e estava com 17 anos. Há quem diga que eu cheguei com disposição, muito provavelmente porque pela primeira vez as minhas liberdades imaginárias encontravam condições concretas. O que significa dizer que hoje eu sei que aquele ano de 1989, sem nenhum exagero, foi o primeiro ano do resto de minha vida. Foi o ano em que eu comecei a militar politicamente, que eu devorava sem nenhum método todo tipo de leitura, o ano que eu terminei um namoro chato sem nenhuma graça e comecei a namorar o cara mais legal da minha turma, que junto comigo e assim como eu experimentou algumas coisas e gostou. Ontem ouvi que 1989 foi um momento sem volta na vida de parte dessa turma. Parte da turma porque dois deles morreram, outras casaram e estão felizes para sempre, um está em Viena incomunicável e outro tornou-se um bem sucedido sacana de wall-street. Bom, o ano foi sem volta pra nós: eu, o cara mais legal da turma que foi meu namorado e um amigo, que também é professor de uma universidade daqui da região. Casamos, separamos, casamos de novo, separamos novamente, atualmente eles estão mais ou menos casados e eu ando contentinha com certas coisas, com as filhas e com as minhas viagens. Bom, em 1989 eu era a novata de uma turma de veteranos putas velhas, que se dispersaria no final do ano, porque alguns deles foram fazer doutorado fora do país, como esse meu amigo, que chegou na Alemanha em agosto de 1989 pra pesquisar sobre o cristianismo primitivo e presenciou a queda do muro de Berlim. Ontem depois das aulas dele na Metodista saímos pra bater papo e tomar uma bebidinha - o que não é frequente, porque nossos encontros acontecem quando um ou o outro não está bem. Uma espécie de resgate do nosso próprio lastro, ou uma maneira divertida de garantirmos que não nos transformaremos num arremedo de nós mesmos - como alguns da nossa turma. Ontem ele não estava bem, era visível. Eu estava cansada com um dia bom mas cheio de coisinhas cotidianas. Mesmo assim demos boas risadas com nossos sonhos recentes que invariavelmente nos levam às nossas melhores lembranças. Muito embora ele e o cara mais legal da turma estivessem saindo da universidade, naquele semestre eles sempre apareciam na minha unidade e assistiam algumas aulas comigo. Numa sexta-feira, saímos da aula do Fusari, jantamos no Rei das Batidas e fomos para uma festa na História. Quando chegamos descobrimos que a lotação era pelo show de sexo explícito e outras cositas mas. Tempos de descoberta da liberdade, quando eles já eram safos e euzinha ainda morava na gaiola de ouro de papai e mamãe, e tinha acabado de cursar o magistério num colégio de freiras da minha cidade - o que nos garantiu alguma diversão e boas risadas de mim, deles e de todos nós. Só e nada más e ponto final, porque o cara mais legal da turma tinha um limite da consciência possível meio inseguro e egoísta, enquanto eu ficava deslumbrada em meio aos modernos. Mas ontem essa lembrança, que sempre foi divertida, começou a pesar quando nos demos conta que passados vinte anos no lugar de festas como a que fomos naquela noite, hoje os universitários vão a forrós e micaretas. No lugar do cigarrinho do demônio como uma das tantas subversões, somos proibidos de fumar um marlboro honesto mesmo embaixo de uma marquise da mesma universidade - sem que ao menos alguém nos dê um argumento verossímel que justifique a fronteira da fumaça entre o lugar onde se pode ou não fumar. No lugar dos sonhos, das utopias de um mundo melhor, mais justo e todas essas coisas que não estão fora de moda, hoje somos obrigados a assistir um dos episódios mais patéticos dos últimos tempos: uma estudante universitária sendo vaiada e xingada por outros universitários, porque estava usando um vestido curto. Hoje, no lugar da esquerda radical country club ou mesmo a esquerda festiva, temos a proliferação de fascistas, lacerdistas e conservadores de toda sorte e idade - daqueles que moram com papai e mamãe até os 40 anos de idade e acham bonito isso. Daquelas que junto com os machistas de plantão são capazes de xingar e ameaçar uma estudante só porque ela é bonita e quis usar um vestido curto. No lugar da velha e ainda perversamente cruel luta de classes, somos obrigados a assistir pobre contra pobre. Somos obrigados a ver a obsessão da contracultura, o sexo, ser banalizado em putaria slow na capa da revista Nova. Em tempos de politicamente correto, somos obrigados a não só conviver com a burrice coletiva como devemos ter cautela com o que dizemos pra que a burrice alheia não seja explicitada. Phoda com PH7, sacomé? Há quem comemore a queda do muro de Berlim e os novos tempos, afirmando que isso tudo é liberdade e democracia. Eu e meu amigo, ontem, saímos daquele boteco com muitas dúvidas e com um pouco de serenidade ao nos reconhecer passados vinte anos.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Onomatopéias tão pequenas de nós dois.

chlap, chlap, chlap, chlap, chlap,
chlap, chlap, chlap, chlap,
chlap, chlap, chlap,
chlap, chlap,
chlap ...
ãããããããããããhhhhhhhhhhhhhh

Classificados.

Um dos melhores trabalhos dos últimos tempos.
É hoje e eu estarei por lá.
Clica na imagem para ampliá-la.

domingo, 8 de novembro de 2009

Constatações em lista.

como um ás da stand-up tragedy, o destempero via embratel me deu vontade de reler "questão de método", do sartre. estava no segundo capítulo, lendo sobre as totalizações e as generalizações demandarem certas mediações, mesmo correndo o risco da redundância - quando aninha, preparando-se para uma prova importante, colocou uma música do rapa cujo refrão é "me abrace, me dê um beijo e faça um filho comigo, mas não me deixe sentado numa poltrona num dia de domingo". simples assim, questão de método.
* * *
tentando preparar um texto em headline, com cada filha em um lugar da cidade, a milhas de distância das ilhas seychelles e a dois passos do paraíso, me dei conta que uma idéia próxima de serenidade é um passeio numa praça de salvador, rodeada pela obra de caribé, uma criança faceira, pulando e brincando com uma bola enorme pink e um pai todo carinhoso com a camiseta linda de uma negra jejê do pierre verger, usando um all-star preto surrado. e uma certa idéia de felicidade seria um jantarzinho no chez bernardo, tomando um drink de melão enquanto você me ouviria contar sobre a metamorfose de os meus e os seus transformarem-se em "os nossos". simples assim: tudo junto e misturado.
* * *
acho que o melhor disco que ouvi até hoje, de todos, é o Fatal da Gal Gosta, cujas músicas são composições de Jards Macalé e Wally Salomão, e a direção musical é de Lanny Gordin. Vapor barato é fabulosa e Como dois e dois me emociona até hoje. Mas confesso que ultimamente ando ouvindo: "olha você vive tão distante/muito além do que eu posso ter/e eu que sempre fui tão inconstante/te juro, meu amor, agora é prá valer". E lendo "pleasure is oft a visitant; but pain clings cruelly to us, like the gnawing sloth on a deer´s tender haunchers, late and loth it is scared away", de Keats. nada demais, apenas a versão metida a besta, de final do século XVIII, para o inconveniente bichinho verde, barrigudo, com unhas cumpridas, sujas e envenenadas.
* * *
je voudrais vous dire ça plus clairement, j´ai peur que vous en soyez facher contre moi: there is a pleasure in the pathless woods/there is a rapture on the lonely shore/there is society, where none intrudes/by the deep sea, and music in its roar/I love not man the less, but nature more/from these our interviews, in which I steal/from all I my be, ou have been before/to mingle with the universe, and feel/what I can´t ne´er express, yet cannot all conceal". Acho que essa versão de Lord Byron (1788-1824), no Childe Harold´s Pilgrimage, foi o ponto de partida para "muita sinceridade é absolutamente fatal", de Oscar Wilde. Passível de restrição, evidentemente.

Song for Nico.

Nico

Born in 1938
A good year for the Reich.
She could not participate
She didn't have the right.
For she was fatherless in the Fatherland.
Now it's 1966
Andrew's up to all his tricks.
And when Brian Jones is near
Nico doesn't feel so queer;
She's in the shit, though she's innocent
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone,
There's just today - No more...
Now it's Andy Warhol's time
Mystic 60's on a dime.
Though she kinda likes Lou Reed
She doesn't really have the need.
Already in the shit, though she's innocent.
And now she doesn't know
What it is she wants
And where she wants to go
And will Delon be still a cunt.
Yes, she's in the shit, though she is innocent.
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone
There's just today
No more.
Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone
There's just today
No more.
Da da da da da
Da da da da da
Da da da da da.
Da da da da da
Da da da da
Da da.

Da da da da da
Da da da da da
Da da da da da.
Da da da da da
Da da da da da
Da da
Por Marianne Faithfull,

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Pássaros na sacola.

rosto roxo
dos que não gritam
nuca vincada
tatuagem onde se afogam
os livros didáticos

não saí aos meus
portanto confie em mim
alguma bondade germina
quando te adio
Por Sérgio Mello

sábado, 31 de outubro de 2009

Sim pro sol, sim prá lua.

Gosto muito do seu jeito
qualquer nota bossa nova,
bossa nova qualquer nota,
eu quero você na veia.
E a vida passa na TV
e o meu caso é com você!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

De ti a mim: elegia.

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens.
Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé.
E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem Vestes.
As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-Te:
atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.
John Donne